Thaís Dandara: a única mulher guia de turismo que mantém viva a memória do Quilombo dos Palmares

O chão de terra alaranjada batida acolhe, lentamente, as mãos e os joelhos de Thaís Paulino, 26. Não demora muito: sua cabeça se rende, seguindo o corpo. Com o seu equeté, adorno utilizado por religiosos de matriz africana como elemento de proteção, ela se inclina por completo e passa alguns segundos em silêncio. É como se pedisse a benção e a licença para entrar na casa de seus avós.  

A reverência é um ritual que a jovem cumpre sempre que pisa no solo sagrado da Serra da Barriga, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985 e, em 2017, pelo Mercosul. É no maior, mais importante e longevo berço de resistência negra das Américas, o Quilombo dos Palmares — localizado hoje na cidade de União dos Palmares,  a cerca de 78 quilômetros de Maceió  — que a alma da guia de turismo parece encontrar morada. Não é só mais uma visita guiada para os que vêm de fora tentar entender o imenso legado dos líderes negros Zumbi e Dandara e tantos outros. É um reencontro para dentro de si.

“Se eu for sozinha, também faço isso. Não é apenas um guiamento, na verdade, fui escolhida para ser guardiã daquele espaço e, de fato, quando estou guiando, é como se eu estivesse vivendo tudo aquilo, presenciando”, conta.

Thais Dandara dos Palmares faz reverência à ancestralidade (Foto: Evelyn Barreto/Cortesia)

Em meio às reproduções do cenário da época como  a Muxima de Palmares (uma espécie de fortaleza), o Onjó de farinha (casa de farinha) e as ocas indígenas , ela conduz os visitantes com uma voz mansa, mas também firme. Gesticula com as mãos, sorri de maneira tímida, se emociona, sente. Por alguns instantes, parece ouvir as vozes de seus antepassados afro-indígenas, guiando seu caminho e sussurrando tudo que aconteceu naquele território que respira liberdade.

Embora ainda não fosse possível prever o futuro, há 22 anos, quando era criança, sua irmã mais velha — a hoje socióloga Edja Paulino — a fez tirar os sapatos para percorrer, pela primeira vez, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Naquele instante, parecia que o destino anunciava que sua vida estaria conectada com aquele tempo e espaço. Foi na Lagoa Encantada dos Pretos, onde os guerreiros palmarinos saciavam a sede, faziam rituais e amolavam seus instrumentos de batalha e de trabalho, que algo aconteceu. Ao parar diante da sagrada gameleira-branca, árvore centenária que representa o orixá Iroko, criador dos caminhos entre a terra (Ayê) e o céu (Orum), Thaís teve uma visão. Dali em diante, foram cinco dias e quatro noites de febre alta e alucinações que a fizeram falar em línguas. 

“Ela me fez tirar os calçados para respeitar o espaço. Só depois percebi que toda a minha existência estava entrelaçada com aquele ambiente. Cada subida à Serra é única”, diz Thaís, que ganhou, pela primeira vez, o nome de Dandara, a guerreira destemida e estrategista na luta contra a escravidão, aos seis anos, quando tentava acompanhar a sua irmã na banda local Afro Nação Dandara. Anos mais tarde, foi novamente rebatizada com o nome após ingressar na capoeira.

Além da formação como guia de turismo, Dandara dá aulas como professora de Geografia na rede municipal de ensino, e faz mestrado na área pela Universidade Federal de Alagoas. Seja na Serra ou em sala de aula, a também educadora vive para relembrar a força de homens e mulheres escravizados que construíram e lutaram por liberdade, que os livros com visão colonial, nem sempre contam.  

Pioneirismo e resistência

Dandara cresceu cercada por mulheres fortes: sua mãe, suas duas irmãs e o seu irmão. Devido a uma tragédia familiar, nunca conheceu o pai. João Cosmo foi assassinado por engano, quando a guia ainda estava no ventre de Maria das Graças. Embora algumas pessoas aconselhassem a mãe de Thaís a doar os filhos, ela se manteve firme e fez o possível para sustentar a casa. O lar era simples, uma “meia-água de taipa”, com três cômodos — uma sala, um  quarto e um banheiro.

Foi ali, nesse espaço modesto, que sua curiosidade sobre a história de Alagoas, do Brasil e do mundo começou a nascer. Na sala de casa, aconteciam frequentes reuniões de movimentos sociais, nas quais sua irmã mais velha, Edja — a primeira da família a cursar uma universidade federal — estava envolvida. Curiosa, Thais ficava a espreita, sem entender completamente o que falavam e o que representavam todas aquelas bandeiras presentes.

Dandara no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, União dos Palmares (Foto: Evelyn Barreto/Cortesia)

Aos dez anos, foi finalmente integrada ao grupo. Edja passou a introduzir leituras para estimular discussões e diálogos entre elas. A primeira obra foi O Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx, seguida pela coleção Primeiros Passos. Na oitava série, o clássico O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro — antropólogo, historiador, sociólogo, escritor e político — chegava às mãos da então adolescente.

A conexão com a irmã mais velha não parou aí. Foi ela quem abriu as portas para que a carreira de Thaís Dandara como guia de turismo se iniciasse. No entanto, o caminho não foi fácil.  À época, o Ministério do Turismo e a Fundação Cultural Palmares, responsáveis pela oferta do curso de Informante de Turismo, impuseram restrições de idade: adolescentes não poderiam participar. Mas Dandara não foi rebatizada com esse nome por acaso.

Enquanto a irmã aprendia artesanato, ela entrava na sala de aula do professor Zezito Araújo, ativista do movimento negro e mestre pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em História do Brasil, para ouvir e conhecer de maneira aprofundada cada canto da Serra. Além das aulas, ela confessa que outra coisa a atraía: o lanche distribuído após os encontros. De tapioca a macaxeira com charque.

“Eu gostava de ouvir as histórias dele, interagia e fazia os trabalhos. Terminou que, no final, consideraram o meu esforço e consegui a formação. Num universo de 54 pessoas, muita gente não se formou e não foi para a prática. Não existia a estrutura de hoje, para subir a Serra, precisava ter muita força e resistência. Era cansativo.  Abracei a profissão com unhas e dentes por amor e curiosidade, mas também por necessidade”, relembra.

Com o certificado em mãos, Dandara foi provocada por Araújo, que apostou no seu potencial após as interações na sala de aula. Mas, antes do trabalho começar, ele  lhe deu um conselho: “Dandara, não decore nada, conte a história do jeito que você sabe, do seu jeito”. 

Dandara explicando o contexto histórico da Serra da Barriga aos turistas que visitam o solo sagrado (Foto: Evelyn Barreto/Cortesia)

Os primeiros visitantes guiados por ela foram alunos trazidos de Maceió por um dos seus grandes incentivadores. Como ainda era adolescente, muitos a olhavam com ar de desconfiança.  Aos poucos, grupos iam se formando, e o pioneirismo de ser a única guia mulher a subir a Serra – posição que ocupa até os dias atuais –  e o diferencial do seu trabalho construíram a sua trajetória.  

A demanda cresceu, já não era possível estudar pelo dia.  Trocou de turno na escola.  Mas, além de enfrentar uma tripla jornada, ao ocupar um espaço ainda dominado por homens, encarou o machismo.  Alguns profissionais mais antigos se sentiram ameaçados e tentaram, por diversas vezes, boicotá-la.

“Eu fechava com umas escolas e, de repente, em cima da hora, elas desmarcavam. Depois, encontrava os guias à frente do passeio. Isso aconteceu em muitos momentos. Certo dia, ao perceber mais uma dessas situações, liguei chorando para Edja e ela me consolou, disse que não desistisse e nem demonstrasse fraqueza, porque se era isso que queria, tinha que resistir”, argumenta.

A jovem também tem algumas histórias inusitadas. Quando começou nesse trabalho, cobrava R$2 de cada estudante que vinha por excursões escolares. A maioria pagava em moeda. Para não perder tempo, contando centavo por centavo, Dandara preferia dar um voto de boa-fé aos adolescentes. Seguia com o trabalho e não parava para conferir se a quantia estava correta.  Ao chegar em casa, tinha uma surpresa.

“Às vezes faltava 0,50 centavos, R$1 de cada um, mas eu não ligava. A maioria era estudante de escola pública”, recorda.

A guia de Palmares sabe do seu pioneirismo e atribui a sua força à criação dada pela sua mãe, que considera uma guerreira. Tal qual ela, Dandara.

“Se eu não tivesse um círculo familiar forte, principalmente da minha mãe entender, não daria certo. Ela entendia que eu estava me arriscando e sempre olhava a roupa que eu saia, porque se algo acontecesse, ela falaria com a Guarda Florestal e passar as minhas características. Ela só ficava despreocupada quando eu voltava. É um trabalho arriscando, mas nunca desisti”, explica Thaís Dandara.

  • Confira, abaixo, galeria com imagens que mostram a guia de turismo Dandara. Créditos: Evelyn Barreto, Osvaldo Bahia e Onilê.

 

Visited 55 times, 1 visit(s) today

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também:

Close Search Window
Close