Alagoas entre quilombos e quebradas: conheça o escritor Lucas Litrento

Texto: Ana Clara Mendes
Fotos: Vitor Beltrão
 
Foi no bairro mais populoso de Maceió, o Benedito Bentes, onde ele cresceu, descobriu a leitura e, principalmente, a escrita. Fazia parte da rotina do menino, após a aula, passar horas na extinta Biblioteca Pública Comunitária e se perder entre quadrinhos, contos e romances. A falta de habilidade nos esportes e as poucas opções de entretenimento fizeram com que os livros fossem sua companhia e a escrita seu desafio.
 
Aos 23 anos, Lucas Litrento tem um livro publicado, intitulado “Os meninos iam preto porque iam” e “TXOW”, que está em processo de publicação. As obras possuem diversos aspectos em comum, entre eles, o toque autobiográfico e o retrato do racismo no cotidiano. A primeira, marcando sua estreia em 2019 pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, é composta por 28 poemas.
 
“Já tinha alguns poemas, fui revisando e escrevendo outros. Acho que o discurso foi se construindo ao longo dessa união. Mas não é uma reunião de poemas. Existe uma estrutura, um conceito. É mais explícito politicamente, tem um discurso antirracista muito forte”, explica o autor, ressaltando que a obra vem de um momento de autoafirmação. “Foi preciso falar sobre a negritude do jeito que eu a enxergo”.
 
Já “TXOW“, que recebeu o Prêmio Delfos de Literatura 2019, organizado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) versa, segundo Lucas, o espaço marginal. “Tanto que ele começa com contos que se passam dentro de um ônibus: o Benedito Bentes – Ponta Verde. Quase todos os contos se passam no meu bairro. O olhar periférico pauta tudo o que está no livro. Esse olhar que vem da margem e não se coloca como menor, só se localiza: está no canto. Mas no livro está centralizado. Eu estou escrevendo sobre e para as pessoas do meu lugar”, expõe.
Para os jurados da premiação gaúcha, a produção se destacou pela força e riqueza da linguagem, que tem inspirações no Rap. Além disso, eles afirmaram descobrir – por meio do relato do cotidiano das ruas da cidade – uma “Maceió que não aparece nos guias turísticos”.
“Há questões de mobilidade, do dia a dia de pessoas que moram na parte alta e trabalham na parte baixa, dos ônibus lotados e da violência. Além da marginalidade, também são colocados temas como masculinidades, o peso do machismo, expectativas sobre o masculino. É um livro que tem muita tensão, os personagens esperam coisas violentas muitas vezes. E também tem o racismo, que muitas vezes serve de motor dos personagens”
Uma longa história
 
Apesar de escrever desde criança, imitando os livros que lia na biblioteca, a visão de Litrento sobre a literatura começou a mudar somente em 2017, quando iniciou sua participação em cursos de especialização na área. Nessa época, o autor já tinha ingressado na faculdade de Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) o que, segundo ele, contribuiu para despertar um tom ainda mais crítico ao seu processo produtivo. “Eu tiro muita coisa da formação para colocar na minha arte. Tenho uma veia cronista e a crítica vem um pouco do Jornalismo”, argumenta.
 
Nas oficinas de criação literária do Sesc Alagoas, ele teve contato com as obras de Lygia Fagundes Telles e João Antônio, que se tornaram referência no processo de escrita. João, conhecido por retratar proletários e marginais que vivem em periferias das grandes cidades, foi inspiração para TXOW.
Outro incentivador para o autor foi a participação do Coletivo Pernoite de Literatura, que conta com encontros mensais. “Lemos livros e escrevemos sobre eles. Foi um divisor de águas pois aprendi que a literatura não é algo solitário, como o escritor na frente da máquina escrevendo. Acho que esse contato enriquece muito e vem me amadurecendo”.
 
Para o futuro, o jovem, que vende seus próprios livros guardados na mochila, não se prende à apenas um gênero. Ele transita entre poesias, contos, cinema, crônica e romance. Este último, já em andamento, é intitulado de “Preto na areia branca”, mostra a continuidade na abordagem ao racismo e suas experiências pessoais.
 
um poema pra dizer quem sou,
como tantos fizeram.
o tema primeiro: nossas entranhas.
papel em branco
estirado no chão frio.
filete de sangue nas margens da página.
saltam letras miúdas,
anúncios de jornal:
procura-se emprego,
 
                                                Obituário semanal,
JOVEM NEGRO É ASSASSINADO
 
letreiros e pixos,
um amontoado de palavras
e comandas do mesmo bar.
o poema pra dizer quem sou,
como tantos fizeram,
fala mais do que não sou,
fala mais dos outros.
por isso o papel
é uma folha de jornal
usada como embrulho.
 
“Autorretrato” de Os meninos iam pretos porque iam
 
O autor disponibilizou uma playlist para o leitor entender um pouco mais da construção de Os meninos iam pretos porque iam. Basta clicar aqui e escutar!
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